Aos pais, com carinho


Acredito que nunca esteve tão difícil educar filhos como nesses dias
de verdadeiro redemoinho nos princípios básicos que sustentam nossa
sociedade. Assisti recentemente a uma palestra onde, em certo
momento, a palestrante deixou no ar a seguinte pergunta, o que é ser
homem na sua casa? E então lembrei-me o que minha mulher e eu sempre
dizemos aos nossos filhos, apesar da pouca idade deles. Procuramos
ensinar a nossos filhos que não basta ter nascido homens, eles
precisam ser machos. Mas antes que alguma crítica seja feita, deixe-
me explicar qual o conceito de macho a que estou me referindo. Nós
ensinamos a eles que ser macho é respeitar o próximo, é respeitar os
mais velhos, é ser delicado com as pessoas, é saber que homens
respeitam e tratam com gentileza as mulheres. Ser macho é antes de
entrar no elevador esperar que as pessoas mais velhas passem à
frente, é não responder aos mais velhos e não usar palavrões.

Procuramos ensinar a nossos filhos que ser macho é saber dizer não
ao que é errado, mesmo que nesses momentos eles fiquem sozinhos do
lado contrário à maioria; ser macho é ter opinião diferente sobre
determinados assuntos sem o receio de ser chamado de babaca. Ser
macho é conseguir se sensibilizar com os detalhes e as mazelas da
vida e assim aprender a chorar. Ser macho é ser alegre, animado e
forte sem precisar do apoio do álcool ou das drogas. É se declarar
não fumante em meio a uma estarrecedora população de jovens fumantes.
Ser macho é não ter medo de preconceitos e declarar amor a Jesus
Cristo em meio a uma sociedade incrédula.

Concordo absolutamente que criar filhos é um privilégio, mas também
é um compromisso assumido perante Deus. Arregacem as mangas, porque
criar filhos dá trabalho. Dá trabalho chegar em casa cansado, ir ao
quarto deles para saber se passaram bem o dia e dizer-lhes - tive
saudades, ou - eu te amo. Dá trabalho ver se as tarefas escolares
ficaram prontas e corretas. Dá trabalho levá-los alguns dias da
semana à escola. Dá trabalho ir conhecer a professora dos seus filhos
para que ela saiba que eles têm pai e mãe, dá trabalho conhecer os
pais e os colegas de seus filhos. Dá trabalho não deixar que saiam
para qualquer lugar, com qualquer pessoa e voltar a qualquer hora. Dá
trabalho levá-los à festinha e ir buscá-los às duas ou três horas da
madrugada.

Dá trabalho deitar ao lado deles e ficar ali, sentido o cheirinho
deles, mesmo que já tenham crescido. Dá trabalho, mas não dá para
fazer de conta que não é com a gente. Sabem qual é o resultado da
falta de tudo isto que foi comentado acima? É só abrir os jornais ou
ligar a TV. Colega matando colegas e professores, neto matando avó,
filho matando pai, pai matando filho, crianças entregues à própria
sorte...Como aconteceu recentemente! Duas crianças assassinadas em
nossa cidade, eu digo crianças porque eram verdadeiramente crianças.
Não adianta encher uma garrafa de cerveja com água mineral, rotulá-la
com o selo da melhor cerveja do mercado, colocar tampa de cerveja e
servi-la como cerveja, porque a água que está dentro dela jamais
deixará de ser água. Naquelas crianças a vida foi antecipada: é como
se o mundo logo tivesse tornado-as adultas, logo tivesse envelhecido-
as e elas já morreram. Crianças colocadas em situação de risco,
crianças de famílias que deixaram Deus do lado de fora da porta.

Precisamos nos envolver com nossos filhos. Se você não tem tempo,
arranje. Se você não acha isto importante, reavalie. A
responsabilidade de criar filhos é de pai e mãe, e nossas crianças
mais do que nunca, precisam de nós.

Diário de Pernambuco - 12 de junho de 2003

Ronaldo Lessa
MÉDICO E INTEGRANTE DA UBE-PE

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