Canto triste

Luiz Maia

Hoje amanheci órfão da alegria.

Perdi o poder de controlar a insatisfação pela vida que levo.

Cansei de ser tão previsível, de ter tudo sob meu controle, de levar uma vida sem alçar vôos maiores.

As perspectivas desapareceram todas, como por encanto.

Hoje sinto que a minha vida está perdendo o entusiasmo.

Tornou-se insípida e tudo à minha volta perdeu o brilho e o sentido de dias atrás.

Quantas dificuldades encontro de voltar a abraçar o mar que amo tanto, de pisar o chão de terra batida, de receber com alegria a chuva sobre o meu corpo, de tomar sorvetes à sombra de uma frondosa jaqueira.

Hoje amanheci órfão da alegria.

Cansei de levar minha vida a resolver problemas infindos, entender de amores desfeitos, de desejos calados.

Já não busco amenizar as ações daqueles que só usam de violência, que fazem da destruição um meio de sentir prazer.

Hoje preciso ignorar a dor daqueles que têm um coração amargo.

Não quero saber o porquê de tantos corações despedaçados.

Hoje sou todo amargura e desencanto.

Reservo-me o direito de ser e estar triste.

Hoje amanheci órfão da alegria.

Não encontro paciência e disposição para abrir mão dessa angústia que me invade, tentando obter a experiência desejada que venha ajudar-me a crescer internamente e a tornar-me maduro outra vez.

Maturidade é também perseverança.

E, neste instante presente, abstenho-me de tê-la, pois o que desejo de fato é negar a vida.

Já não penso em empenhar-me a fundo em um trabalho, estou às voltas com a desarmonia de um tempo que findou dentro de mim.

Já não vejo as flores que alegravam a minha estrada.

Onde estão os beija-flores, os rouxinóis e patativas do meu lugar?

Há contratempos desalentadores no meu caminhar, e os jardins das cidades já nem se lembram mais de mim.

Hoje amanheci órfão da alegria.

Creio que maturidade é abnegação.

Já não disponho do desejo franco de cooperar.

Por isso mesmo perdi por completo a capacidade de enfrentar o desagradável, os desprazeres e a decepção, sem me tornar amargo.

Aquele desejo tão grande de ajudar os outros sucumbiu diante da impotência que abraçou o meu ser.

Ao invés de simplesmente dar a mão, acabei por me tornar omisso frente à responsabilidade de satisfazer, unicamente, ao meu desejo de permanecer inerte a tudo e a todos.

Já não me seduzem o cantar de pássaros, o pôr-de-sol de Porto, até mesmo o sorriso dela.

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