Carências

Luiz Maia

É possível que os valores atuais de nossa sociedade contribuam para inibir as demonstrações de carinho que todos deveriam ter uns para com os outros. O que se vê é a indiferença imperando em cada rosto que encontro. A maioria das pessoas está mesmo interessada em autoproduzir-se, em adquirir status fazendo valer o seu lado personalístico.

Nunca valorizaram tanto a individualidade como agora, jamais nos sentimos uma ilha como atualmente. Notamos o homem buscando o isolamento para si e nesse processo vemos o egoísmo saindo fortalecido. Ninguém está interessado em se relacionar mas ao que parece muitos buscam atrair para si as atenções. Muitos se exibem como podem, mostrando-se para uns poucos que ainda dispõem de tempo para admirá-lo.

Tudo indica que poucos ainda se lembram de agir solidariamente, de emprestar sua voz ao outro que necessita, ou mesmo ceder um pouco do seu tempo para escutar e amenizar a dor alheia. A sociedade está enferma à medida em que se esmera em valorizar o consumismo exarcebado, algo que exige uma melhor avaliação de todos nós. E por aí o homem passa a consumir e a valer por aquilo que tem, pelas coisas que demonstra possuir. Adquirir bens passou a ser o único parâmetro de status. Desse modo, estão condenadas ao total esquecimento as pessoas que não têm o hábito de consumir, ou por não gostarem ou porque não dispõem de dinheiro para tal. Esse modelo de sociedade não é o ideal que gostaríamos de ver.

Existem muitas pessoas contrariadas com aquilo que são. Desorientadas, muitas parecem perdidas e sem identidade. Andam de um lado para outro sem saber quem são nem o que querem, estão todas à procura de algo e nada fazem para estimular sua criatividade. Algumas já não raciocinam como deveriam, esquecendo-se de questionar tal comportamento. O ilógico acontece quando elas se vêem diante de inúmeros apelos, vindos dos shoppings e das lojas comerciais, e logo encontram no consumo desnecessário as respostas de que tanto precisam.

O meu pai já dizia que o homem só vale aquilo que tem. Hoje, cada vez mais, o entendo melhor. Desse modo nos esquecemos de certos valores, de tudo o que é simples e que realmente merece ser valorizado. Sei que infelizmente já não há mais volta, e seguimos condenados a viver sem maiores esperanças. Concordo que pessoas que pensam como eu são atropeladas diariamente pela correria da vida moderna. A partir daí mergulho - inutilmente - no meu passado, em nostálgicos arroubos buscando o conforto de que necessito.

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