Veredas de uma Vida

Luiz Maia

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Recife, 2 de janeiro de 1971. A hora de retornar a São Paulo estava chegando, e ao meio-dia minha mãe nos chamava para almoçar. Meu pai sentara à cabeceira da mesa, eu estava na outra, enquanto meus irmãos se dividiam ao redor formando uma imagem que não me sai da cabeça. Minha mãe servia o almoço com um olhar contemplativo, e o silencio se fez presente naquela sala de jantar. Olhar no olhar distante dela doía meu coração... Comi rápido, tentando me livrar daquele momento embaraçoso, até que o silêncio foi quebrado pela buzina do carro de Antonio, avisando-nos que estava pronto para partir. Desta feita só voltaria conosco uma freira, já que a outra estava se mudando para Recife.

Depois de mais uma calorosa despedida, mergulhamos no carro e seguimos viagem no caminho de volta. Agora o silêncio se fazia sentir entre nós. Nada do que víamos pela estrada nos chamava atenção, mesmo já estando perto de atravessar o rio São Francisco. Minha cabeça só pensava naqueles momentos... O tempo, mais uma vez, chegava para balançar minha frágil estrutura. De repente caí na real e já buscava atingir novos sonhos. Foi então que resolvi romper com aquele silêncio, dando a idéia de passarmos por Salvador, pois não conhecíamos aquele lugar.

Antonio concordou e, como a freira nada tinha contra, resolvemos mudar de direção. Às cinco horas da manhã chegamos à praia do Farol. Rodamos mais um pouco pelo litoral, tentando alcançar a praia de Itapoã, mas sem conseguir êxito. Então resolvemos conhecer o falado Mercado Modelo. A princípio aquilo ali nos pareceu muito sujo, com lixo espalhado por todo lugar. Foi então que resolvemos seguir viagem para ganhar tempo.

A viagem transcorria perfeita, sequer um pneu havia estourado, e logo chegávamos à Barra Mansa, no Estado do Rio, local em que havia um convento religioso onde deixamos a freira amiga. Tratamos de encher o tanque com gasolina, e só nos restou vinte cruzeiros no bolso, dinheiro suficiente para enchermos o tanque mais adiante e chegar em São Paulo. Chegamos à noite. Depois de retirarmos a bagagem do carro, Antonio e eu disputávamos o privilégio de tomar um banho morno e descansar em paz. Eu, mais uma vez, esquecia de agradecer a Deus por nos ter levado e trazido, em paz e salvamento.

 

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