Veredas de uma Vida

Luiz Maia

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João Tarugo e Zé Carlos interromperam nosso saudável sono, avisando-nos que era hora de trabalhar e que a vida mansa terminara. Depois de um bom banho, e já tomado café, saí fumando um cigarrinho em direção ao escritório. Em lá chegando, debrucei-me sobre um monte de livros fiscais que aguardavam atualização. A rotina começava a todo vapor, abrindo uma porta para meus questionamentos sobre o que eu queria realmente da vida. Essa resposta, feliz ou infelizmente, eu nunca tive. Após esgotar os assuntos das férias com os amigos, eu voltava minha atenção para Sheila e Clarete. Antonio gostava demais dessa moça e andava meio chateado com os rumos das coisas.

Certa tarde, após um telefonema das meninas para Antonio, marcando hora e local para nos encontrarmos, comecei a pensar que algo de ruim acontecera. Essa situação constrangedora afetava em cheio nossos brios. À noite fomos nos encontrar... Clarete me parecia linda naquela noite, enquanto Sheila distribuía seu sorriso aberto e contagiante. Entramos no carro e começamos a conversar, enquanto seguíamos com destino ao Parque Ibirapuera. As notícias não eram nada animadoras, e começamos a ficar tristes. Sheila era muito nova para tomar uma atitude radical, já que seus pais não lhe davam trégua. Pensamos que essa situação teria de ser "empurrada com a barriga".

Aproveitei a situação para ficar conversando com Clarete, sorver aqueles doces instantes... Eu ficava bem juntinho dela, aspirando seu cheiro, mas nada de ter coragem para declinar meu sentimento por ela. Lembro-me que ela chegou a pegar em minha mão, pedindo-me para não me importar com o preconceito de seus pais, alertando-me para nunca falar com eles sobre família e religião. A situação chegou a esse ponto. Mas eu só queria admirar seu rosto, sua tez alvinha e seus olhos azuis claros. Eu tinha de escolher o momento certo para declarar-me. Eu necessitava... Era questão de precisão mesmo! Gostaria de reunir forças para falar do meu amor e me sentir bem! Sem coragem, chegava a ter raiva de mim. Estar ao seu lado, apenas, já não mais me satisfazia, nem me bastava. Ela sabia disso, eu também, mas seguíamos mudos, sem nada falar...

 

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