Veredas de uma Vida

Luiz Maia

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Sexta-feira era o dia de que eu mais gostava na semana. Ao final do expediente eu passava no Bar do Mário para comprar dois litros de batida de frutas, e levava-os para o apartamento. Zé Carlos e João viajavam para Capivari, enquanto Antonio e eu ficávamos bebendo e comendo à toa, ouvindo as músicas mais lindas que podemos imaginar, obedecendo a gostos variáveis. Bons momentos aqueles. Eu viajava nas asas dos sonhos, imaginando melhores dias para mim.

Em março chegava o carnaval. Resolvemos passar aqueles dias em Santos. Nossa intenção a princípio era descansar e passear um pouco, para conhecermos melhor a cidade. Em plena Av. Presidente Wilson, estavam Antonio, Victor, Adelson e eu, todos com caras de bobos a admirar as garotas desfilando com trajes de banho. Para quem não via uma mulher nua há alguns meses, aquilo não poderia cair melhor. As pessoas pareciam escolher Santos para passar o carnaval, tamanho era o número de veículos descendo a Serra. Os congestionamentos eram inevitáveis: num percurso em que levávamos 40 minutos para chegar, naquele dia nos custava cerca de 1 hora e meia, mais ou menos. Era o preço a pagar para quem se atrevesse a descer à Serra no carnaval.

Quando chegamos a Santos, nos alojamos numa hospedaria de segunda categoria, tipo "nenhuma estrela". Nosso dinheiro se resumia a alguns cruzeiros, suficientes para comprar cervejas e alguns frangos a passarinho. Nós andávamos bastante a pé, e eu me recusava a mergulhar naquele mar de águas frias e gélidas. Mas o cair da tarde chegava, e com ele veio um momento divino. Naquele instante eu via um espetáculo que jamais esquecerei: no calçadão daquela praia, centenas de moças encantadoras, todas surpreendentemente lindas, andavam de um lado para outro me deixando perplexo! Nunca vi tantas mulheres bonitas juntas, de uma só vez, em toda minha vida. Aquele espetáculo tornava o metro quadrado daquele lugar, se não o mais caro do mundo, mas certamente o mais belo de todos que se viu. Entre nós não poderia haver outro assunto para se comentar, a não ser essa fantástica aparição. Ficávamos tentando descobrir o porquê de tanta mulher bonita ao mesmo tempo, onde elas poderiam morar em São Paulo, etc e tal. Dei-me por vencido e resolvi não questionar mais nada, e escolhi por admirar todas elas com carinho, sem cansaços...

Esse ritual demorou mais de duas horas, e logo depois todas se dissiparam, como por encanto. À noite muitas foram curtir os bailes de carnaval, em diferentes clubes sociais, deixando as ruas desertas e o meu coração amarrado à frustração de não poder, sequer, tocar numa delas. Minha carência levava-me ao desejo infantil de beijar e abraçar, uma a uma, vontade que logo morreria reprimida. O melhor a fazer naquela hora era mesmo dormir e esperar um novo dia chegar. Quem sabe assim não voltaria a usufruir aquele verdadeiro colírio para os olhos?

 

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