Veredas de uma Vida

Luiz Maia

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A mãe de Victor soube da presença de meu pai entre nós e nos convidou para almoçarmos todos em sua casa. Chegou o sábado. Acordei ansioso para tomar uns aperitivos, e junto com Antonio, papai e Victor rumamos em direção ao tão esperado almoço. A família Giannocaro nos recebeu muito bem, como era de se esperar. Meu pai, ao ser recepcionado com tanto carinho e satisfação, ficou radiante e começou a falar de suas lembranças de Portugal. O pai de Victor era um imigrante italiano e na mesma medida começara a desfolhar suas lembranças do tempo em que vivia na Itália, contando como fora sua vinda para o Brasil.

Lembro-me bem da alegria incontida de meu velho pai, distribuindo sorrisos a torto e a direito, manifestando sua alegria em poder conhecer uma família agradável, com histórias de vida semelhantes a sua, sendo ambos imigrantes europeus. O almoço fora servido e nós passamos a degustar aquele saboroso prato, que fora surpresa até chegar à mesa. Uma bacalhoada portuguesa ao forno. Que delícia! Essa foi a conclusão a que chegamos, a ponto de meu pai dizer que não havia comido nada igual até o momento. Embora meu pai fosse um homem generoso, naquele instante estava traduzindo aquilo que também achávamos. Foi um dia maravilhoso que ficará marcado para sempre em nossas mentes.

Após nos despedirmos, voltamos para o apartamento trazendo conosco o senhor Giannocaro. Meu pai e o de Victor ficaram horas jogando cartas, só parando para tomar um cafezinho que eu mesmo fizera. Logo nos despedimos. O domingo chegara, com ele a expectativa do meu pai em poder vender alguns selos de correio, na Praça da República. Ao chegar à Praça, meu pai logo soltou uma nota: "até que enfim estou vendo verde nesta cidade!". De fato São Paulo carece de mais áreas verdes, pois as que tem deixam a desejar. O verde interfere positivamente na qualidade de vida de um povo. Mas um fato hilário estava por acontecer. Ao tentar negociar os selos ou moedas antigas, com um judeu naquele lugar, meu pai virou uma fera indignado com uma proposta ridícula de compra feita por aquele mercador. Aos berros, ele dizia assim: "está pensando o que, judeu usurário? Pensa que está lidando com um mendigo do Norteste, seu filho da mãe?" Adelson e Antonio, rindo bastante, trataram de acalmá-lo a todo custo, só conseguindo depois de muita conversa. Essa passagem serviria para ele contar como inusitada experiência durante todos esses anos de sua vida. Na segunda-feira eu o levaria à rodoviária para que pudesse voltar ao Recife.

 

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