Veredas de uma Vida

Luiz Maia

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Fiquei meio abalado, confesso, e já respirava o cheirinho de maresia da Praia de Boa Viagem, tamanho era o comentário acerca do Recife. Antonio assistia a tudo calado, meio sem graça, esboçando um sorriso maroto, demonstrando todo seu desapontamento com minha iminente ida para o Recife. Indiferente a tudo isso, a vida continuava para todos, mas eu teria de posicionar-me num curto espaço de tempo. No dia seguinte já havia me decidido que partiria com eles, e com o meu irmão, de volta ao Recife. Só me restava agora me preparar para a crua realidade da despedida. Eu me cansei de tantas despedidas... Detesto ter de me despedir. Parece que deixamos uma parte nossa em cada lugar; é como morrer um pouco, e como dói...

A gente parte sem ter a certeza de um dia poder rever aquelas pessoas queridas. Por telefone, distante do contato físico, me despedi de Clarete e Sheila. Quanto silêncio entrecortado por um "oi, desejo-lhe muitas felicidades..." Quanta hipocrisia a nossa! Não que fosse mentira, mas desde que ao lado dela. Finalmente, ficamos acordados que trocaríamos telefones quando da minha chegada. Chegou a vez de falar com Antonio. Trocamos um longo e afetuoso abraço... E, sem dizermos nada, choramos os dois abraçados tudo que estava guardado em nossa alma. Grande amigo e companheiro foi Antonio para mim.

Ainda com os olhos marejados, entramos naquele velho Aero Willys, rumo ao Recife. Chegamos no Rio de Janeiro à noite, e decidimos dormir dentro do carro. Não precisa dizer que foi uma noite horrível, mas logo cedinho fomos recompensados pela beleza de dia que fazia. Precisamos correr para poder conhecer o Pão de Açúcar. De lá de cima vislumbramos uma paisagem maravilhosa! Os turistas enlouquecidos a tirar fotos e nós nos divertindo como nunca.

Essa viagem girou em ritmo de pura bagunça, várias brincadeiras. Mas tudo passa, e já estávamos no nosso segundo dia de viagem, indo na estrada em direção às barcas que faziam a travessia do Rio São Francisco. A partir dali comecei a pensar como seria a minha vida agora, onde iria trabalhar, o que me esperava. Bira e eu nos revezávamos ao volante durante todo trajeto. Num domingo chegamos. Estava eu ao volante, quando fiz questão de percorrer a beira-mar de Boa Viagem, saboreando aquele mar e aquela paisagem amiga que ficaram para trás um dia. Logo cheguei em casa. Dei um abraço em minha mãe e no meu pai, que me esperavam felizes. Pareciam não acreditar na minha presença. Agora é só matar saudade. E conversar...

 

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