Veredas de uma Vida

Luiz Maia

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Na solidão de meu quarto, acordei no dia seguinte e comecei a chorar... Um choro atrasado de alguém que vira ficar para trás o trabalho, os amigos, a esperança e a própria vida dividida em pedaços, que eu precisava urgentemente recompor. E caí em campo em busca de um emprego. Consegui um trabalho no Grupo Financeiro Ypiranga, como autônomo, para lidar com papéis: Fundo de Investimentos, Letras de Câmbio, etc. Sinceramente esse não era o emprego dos meus sonhos, em hipótese alguma. Só fazia andar muito, gastar sapato, dinheiro, e nada de retorno já que essa não era minha área de modo algum.

Nesse meio tempo cheguei a ligar para Clarete. Ela ficara feliz, dizendo-me que gostava muito de mim e que o meu lugar era lá em São Paulo, e não no Recife. Ponderei dizendo-lhe que se ela houvesse me dito isso antes, quando ainda estava bem junto dela, tudo seria diferente e as coisas tomariam um outro rumo que não aquele. Outras vezes trocaríamos telefonemas, e eu adiando sempre meu retorno a São Paulo, mas deixando uma porta aberta para essa possibilidade. Isso a animava sobremaneira.

Um belo dia, minha prima Carolina me telefonou à tarde, avisando-me que havia conseguido uma colocação para mim. Eu passaria a trabalhar no Hotel Côte D'azul, situado na Av. Boa Viagem, ocupando o cargo de recepcionista. Mas como recepcionista sem sequer saber inglês? Eu já estava condicionado ao trabalho, gostava de lidar com hóspedes e fiz ali muitas amizades. Lembro-me de algumas pessoas ilustres que se hospedaram lá: Jimmy Carter (ex-Presidente da América), Rudman Rockefeller, Chico Anysio, Toquinho e Vinícius de Morais, Juscelino Kubitschek, entre outros. Mas nas horas vagas eu me deliciava ao ver aquele imenso mar à minha frente, possibilitando-me fazer terapia sem precisar de divã...

No início de agosto de 1972, comecei a namorar uma garota que residia há pouco no Recife, sendo natural do interior de São Paulo. Com o passar dos dias notei que meu sentimento para com ela não era amor, mas sim uma brava paixão. Esse sentimento é a própria negação do amor. A paixão queima o coração de quem a sente. A paixão é cega, egoísta e exclusivista. Quando de braços dados com esse sentimento, podemos vir a cometer verdadeiros absurdos, tudo em nome de um falso amor - o que é bem pior. Amor é doação, partilha, solidariedade e respeito com o outro. Mais uma vez estava eu envolvido numa relação que me fazia sofrer muito...

 

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