Veredas de uma Vida

Luiz Maia

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O ano de 1973 começou pessimamente para mim, parecendo sinalizar para coisas nada agradáveis. Em janeiro fui demitido do Hotel em que trabalhava, sob a alegação que infringira as normas da empresa, quando eventualmente me sentei ao lado de alguns hóspedes, nas mesas de seu restaurante. Confesso que era pura verdade, pois algumas pessoas gostavam de conversar comigo. Mas não me considerei culpado por atender aos pedidos deles. Afinal, foram feitos alguns pedidos para que a direção revogasse aquela decisão, mas todos infrutíferos.

Mal começou fevereiro e a minha namorada viajou para São Paulo. Nos despedimos, mas com promessas de logo nos reencontrarmos. Uma semana após sua viagem, me escreveu terminando com nosso namoro. Rasguei a carta, e em silêncio comecei a chorar... Passei a sentir raiva de mim, e descontava toda minha frustração mergulhando na bebida. Cerveja, uísque e o que aparecesse eu bebia sem escolher dia nem hora. Os meus dias eram cinzentos, e eu seguia sem parar de fazer mal ao meu corpo, sem dar ouvidos aos incessantes pedidos de socorro.

As coisas acontecendo, e eu meio sem saber o porquê disso tudo. Certo dia viajei a Salvador para recuperar um carro de um amigo meu. Quando já estava no caminho de volta, lembro-me que chovia bastante na estrada. Corria sem parar na tentativa de chegar logo ao Recife. De repente, sem que pudesse fazer nada, vi o carro rodopiar na estrada, para em seguida capotar três vezes, lançando-me para fora. Eu vi tudo. Eu estava deitado no acostamento de barro, sem poder falar e sangrando bastante. Olhava aquela chuva a cair no meu rosto, e ficava a perguntar como escapei. Já era noite e estava na solidão da estrada, o corpo doía e eu sem saber o que fazer. Deus, mais uma vez, agia em minha vida e eu nascia mais uma vez... Depois de me recompor, consegui a duras penas levar o carro até Aracaju. Fui para um hotel pernoitar, e no dia seguinte encontrei um amigo que estava indo para Recife. Quando convidado, aceitei ir com ele. A cada curva que fazia, eu me contorcia todo ainda traumatizado com o meu acidente.

 

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