Veredas de uma Vida

Luiz Maia

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Estava eu num quarto de hospital, sem ter a mínima idéia da gravidade da situação. De repente, entra no quarto um enfermeiro com um rádio na mão, quando começo a ouvir Roberto Carlos a cantar a música O Homem, que dizia mais ou menos assim: "Um certo dia um homem esteve aqui / tinha o olhar mais belo que / já existiu..." E continuando: "Tudo que aqui Ele deixou / não passou e vai sempre existir..." Eu não havia escutado essa música antes em minha vida, e, sem entender o porquê, cai num choro convulsivo que demorou a passar. Deus, novamente, agia em minha vida e eu nascia de novo.

Qual o significado desses vários nascimentos em minha vida? Eu não sabia responder, "mas é preciso morrer o grão para nascer o trigo e morrer o trigo para nascer o pão". Minha impaciência ao querer saber o que acontecera comigo foi o fator determinante para que os médicos se reunissem e viessem falar comigo. Dois deles chegaram perto de mim, e foram logo falando: "Luiz, você sofreu um acidente automobilístico, foi operado com urgência, passa bem e em breve tudo voltará ao normal". Eu sabia que estavam escondendo a verdade, pois lembrei que nem sequer havia alcançado o carro, que estava estacionado do outro lado da rua. Ouvira tudo calado, e quando se retiraram, o silêncio se fez presente em meu quarto, e do canto de meus olhos era fácil ver as lágrimas escorrendo lentamente...

Os dias iam passando e as visitas continuavam proibidas. Vi quando duas enfermeiras entraram no quarto, retiraram toda roupa que me cobria, e começaram a me dar um banho no leito. Estava morto de vergonha e nem sabia que isso passaria a ser comum em minha vida. Eu não via a minha mãe há muito tempo, até que recebeu autorização para me fazer companhia durante as noites. Ela passava noites inteiras ao meu lado, sentada numa poltrona sem nenhum conforto, em plena vigília. Eu daria tudo para não vê-la sofrendo daquele jeito, solidária à minha dor. A dor moral dói bem mais que a física. Ela toma conta do nosso peito, dá um nó em nossa garganta, e só nos cabe chorar, chorar, chorar...

 

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