Veredas de uma Vida

Luiz Maia

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De volta ao hospital passei a fazer fisioterapia à tarde, ficando a manhã livre para receber visitas e me ocupar com alguma atividade. Infelizmente minhas manhãs eram de plena ociosidade. Ao meio-dia minha tia Celina mandava o meu almoço, isso durante todo tempo em que estive hospitalizado. Comecei a fazer amizades com alguns companheiros de infortúnio, tirando dúvidas e fazendo estimativas do tempo em que eu teria ainda de ficar ali internado. Eu não sabia o que era paraplegia, mesmo sendo um paraplégico. Eu me esforçava muito tentando readquir o meu equilíbrio e partir para o treinamento de marchas.

Meu pai, todas as tardes, antes de ir para a padaria passava para me visitar. Lembro-me, com tristeza, das várias vezes em que não lhe dirigi a palavra. Ele mal entrava no quarto e ia logo perguntando por mim, fazendo-me algumas perguntas. Eu, simplesmente, calado estava, calado ficava... Eu começava a descontar no meu pobre pai todas as minhas frustrações. Depois de ouvir tanto silêncio, ele olhava para mim, numa postura de impotência, com um olhar distante, triste, me dizendo assim: "até logo meu filho, fica com Deus, eu te compreendo..." Eu não falava com ele mas por dentro ia me destruindo aos poucos, e o arrependimento logo chegava. Mas o que eu queria mesmo era poder abraçá-lo, e sorrindo dizer que me perdoasse por não poder mais andar, mas que eu estava tentando e tivesse um pouquinho mais de paciência.

Essa era a minha vontade, mas que ele nunca veio a saber. Minha mãe ficava ao meu lado todas as noites, indo embora só às vinte e duas horas. Ela era a paciência personificada. E no seu olhar distante, eu viajava também, buscando respostas para nossos frágeis sonhos, ignorando por completo o imponderável. Ah!, meu pai, ah!, minha mãe, a dureza do mundo lá fora e a leveza de vossos gestos, cá dentro comigo. A liberdade de minha mãe ficara comprometida por causa de seus cuidados e o zelo devotados a mim, e tal comportamento apenas começara. Meu irmão Germano passava o dia inteiro ao meu lado, e isso comprometia os seus estudos, o seu trabalho, a sua vida. Um simples tiro, e o despencar de uma estrutura familiar.

 

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