Veredas de uma Vida

Luiz Maia

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Os domingos à tarde eram especiais para mim. Minha mãe e minhas irmãs iam me visitar, enchendo de alegria aquele quarto, numa tremenda algazarra. E juntavam-se a nós: Fátima, prima de Jane; Artur, companheiro de enfermaria e nosso amigo, além de Germano e o saudoso José Ângelo, meus irmãos queridos. Eu gostava de repartir entre todos alguns pastéis que a tia Celina costumava me levar todos os domingos, modificando um pouco aquela rotina. Eram dias difíceis para mim, já que tudo indicava que dali em diante o meu caminhar seria sobre rodas...

Vivia com vergonha de expor minha deficiência, ao me deslocar do quarto para a clínica de reabilitação. Esta fase demoraria a passar. Os médicos, sempre que conversavam comigo, passavam a insinuar, em cada assunto levantado, o fato de que grandes homens se notabilizaram no mundo, mesmo estando alguns deles em cadeira de rodas... Precisava rapidamente carregar comigo a força crua da realidade, vindo a me sentir um homem livre e útil, mesmo tendo de caminhar sobre rodas. O destino costuma nos colocar, muitas vezes, contra a parede, sem nos oferecer opções. Por um momento, lá se vão as utopias, os sonhos e as ilusões.

O paraplégico precisa se acostumar a essa nova fase em sua vida, e assim ser capaz de poder flexionar os passos por novos caminhos, em busca de novos horizontes e objetivos, carregando consigo pernas já embrutecidas pelo ócio. Eu me deliciava ao ver na televisão algumas pessoas caminhando sem ter a menor consciência da complexidade que aquilo representa, com suas milhares e milhares de células provocando o milagre do andar, sem precisar de nenhum esforço para isso. Numa partida de futebol, por exemplo, os atletas se expõem ao máximo, chegando muitas vezes a atingir o outro gravemente. Eu pensava em poder chegar perto deles e pedir que não atuassem daquela forma, evitando assim ter de passar pela minha dor...

Há um ditado que diz: "nós só damos valor às coisas depois que as perdemos". Eu vivia em meio àquela transformação, e aos poucos fui me reconhecendo um outro, à medida em que buscava enriquecer o meu avesso, tão importante e desconhecido para mim. Da janela do meu quarto, costumava apreciar o brilho das estrelas, sem ter que me preocupar em nada com o passar do tempo...

 

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