Veredas de uma Vida

Luiz Maia

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Os dias passavam rápidos, quando um belo dia a irmã Leontina entra no quarto querendo saber de mim. "E aí, Luiz, animado?" - Sim, irmã, nada a reclamar, apenas aprendi que as crianças são mais rápidas que eu, e logo aprendem a andar. "Calma, Luiz, tenha calma, o seu quarto sempre cheio de visitas, com muitas moças bonitas, querer mais o quê?" A irmã Leontina tinha muita pena de mim, dizia ao meu irmão que o tiro que tomei devia ter me deixado meio bobo. Eu tirava proveito disso pedindo às enfermeiras para trocar a minha roupa de cama todos os dias, no que era prontamente atendido.

Nove horas da manhã, daquele mês de outubro. Eu já estava perto de receber alta do hospital, quando na porta aparece minha amiga Carol... Ela abriu aquele sorriso, vindo em minha direção com um embrulho na mão. Eu falei: "até que enfim apareceu, já nem lembrava mais de você". "Ah, me perdoe seu bobo, eu pensei tanto em você, mas quando soube do acontecido as notícias não eram nada animadoras, e resolvi não lhe ver daquele jeito". Tudo bem, o importante é que estás aqui, comece a falar de você. "Primeiro, eu lhe trouxe um livro de Hermann Hesse, Demian, espero que goste. Sabe, Luizinho, daqui a uns seis meses eu estarei me formando, e já estou pensando em fazer mestrado na Europa. As coisas andam tão chatas por aqui..."

Eu ouvia tudo calado, e terminei por lhe dizer: "Carol, trate de valorizar as pequenas grandes coisas à sua volta, você nem tem consciência que elas existem. Agradeça pelo corpo perfeito que possui, valorize cada movimento que você executa, obedecendo às ordens do cérebro. É maravilhoso poder andar livremente, e saber que tem tanta gente de posse de todos os movimentos, e seguem mantendo a vida paralítica dentro delas, chega a doer em mim." No que ela retruca: "Ô meu lindo, não vamos falar nisso não! Afinal você me parece tão bem, está lembrando um anjinho barroco". Conversamos mais um bom tempo, e ela parecia não se cansar de alisar minhas pernas, movimentando sempre meus dedos dos pés... Ao nos despedir, trocamos um beijo e um abraço demorados, como se não fôssemos mais nos ver.

 

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