Veredas de uma Vida

Luiz Maia

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Natal de 1974... Eu estava no terraço, prestando atenção ao meu pai que cantava a música "La Traviatta", no banheiro. Meu pai era um tenor, uma grande alma de artista. Ele poderia de ter conseguido sucesso em tudo na vida, menos como comerciante que foi a vida inteira. Era também filatelista, para quem não sabe, colecionador de selos de todo mundo. Devido a essa sua qualidade, pôde conhecer quase tudo da vida e do mundo, sendo parecido com uma "enciclopédia ambulante". Tinha a sensibilidade à flor da pele, e era fácil vê-lo por vezes emocionado. Seu jeito o fazia uma pessoa alegre, daquelas que chamamos de uma casa cheia, estando sempre a brincar com um e com outro.

No seu dia-a-dia, não podiam faltar à mesa uma boa sopa quente, frutas a valer, um bom vinho, e vez outra um bom caldo-verde português. Amante da vida, adorava ficar horas a conversar amenidades, onde podia demonstrar o seu conhecimento das coisas. Adorava e cultivava orquídeas, essa maravilha de planta silvestre. Caruso era para ele o maior tenor que o mundo conheceu. Eu ficava embevecido com as proezas de meu pai, e isso amenizava a minha tristeza. Estava completando um ano do meu acidente, e minha insatisfação era propícia para que eu só viesse a contabilizar perdas: perda do meu andar, perda da namorada, perda da vontade de continuar a lutar, e, principalmente, a perda da fé que eu não tinha...

Eu levei uma vida inteira me equilibrando em cima de uma navalha: de um lado a vida, do outro a morte. Uma força estranha, que eu não sabia explicar o que era, sempre soprava a meu favor, me empurrando para a vida! Eu precisava estimular o meu lado fraco a continuar insistindo em poder um dia ser forte. Mesmo incrédulo, por instantes, eu precisava mentir para mim mesmo, e assim poder fazer valer a obstinação que em mim vivia adormecida. Em toda minha vida eu sempre torci para o mais fraco, por que não torcer agora por mim? Aquilo que perdemos um dia, pode ter sido emprestado a vida. Quem nos garante que um dia a vida não possa nos devolver tudo, mesmo que não venha mais com o mesmo sabor nem a mesma cor? Claro que pode! Mas aí será preciso reaprender a gostar e a amar aquilo que nos foi dado. É a vida...

 

 

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