Veredas de uma Vida

Luiz Maia

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Em meados de 1975, de comum acordo com meu irmão Germano e com o meu amigo Artur, fomos passar uma temporada na praia do Janga. Fizemos compras para três pessoas para durar umas duas semanas. Logo nos instalamos naquela casa à beira-mar. No quintal havia uma passarela, feita especialmente para mim, onde eu fazia exercícios diariamente, andando de um lado para outro, me agachando, tentando me equilibrar e fortalecer os meus braços. Eu ficava assim cerca de trinta minutos sem parar, debaixo de um sol escaldante que queimava minha pela branca sem piedade. O suor escorria da cabeça aos pés, e eu era todo alegria e entusiasmo naquela passarela. De longe, talvez eu parecesse com um atleta em fase de recuperação.

Eu via o meu irmão subir no muro com a maior facilidade, depois passava a caminhar sobre ele sem a menor preocupação. Seu equilíbrio era perfeito, e eu me comprazia com isso. Meu coração batia palmas para aquele "espetáculo" proporcionado por ele. Ah, se eu soubesse antes o que sei agora, vivia a agradecer todas as vezes em que subisse alguns degraus, ou me sentasse num muro distraidamente. Pela manhã, bem cedinho, já estávamos prontos para degustar uns sanduíches com suco de frutas e um pouco de café com leite. O vigia da casa ao lado chamava-se João, e nos acompanhava diariamente nesse café matinal. Era uma pessoa engraçada, simples, e seu sorriso alvo contrastava com sua pele negra. Aproveitei para lhe presentear com uma camisa vermelha e branca, cores do meu Náutico Capibaribe, com a condição de exibi-la sempre que puder.

Após o café, lá estávamos nós diante daquele majestoso oceano, com suas águas em tons azulados. A praia estava sempre deserta, e eu olhava emocionado para o infinito do horizonte. As lágrimas rolavam fáceis em agradecimento por aquele momento. Oh, meu mar amigo, hoje já não posso nadar-te, já não posso mergulhar-te a procurar por tuas sereias, mas tu continuas belo, exuberante e encantador! Meu mar querido, hoje peço-te para que me aceites com minhas limitações, com minhas pernas e braços alheios à tua força, e sejam tuas ondas amigas, no vai e vem do me banhar. Chegava a ficar horas a fio com a água pela cintura, ajudado pelo meu irmão que me segurava. Assim eram os meus dias naquela praia deserta, e eu aproveitava para dar oportunidade à criança que latente vivia em mim.

 

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