Veredas de uma Vida

Luiz Maia

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Era o ano de 1976. Os sinais de minha ida para a ABBR, no Rio de Janeiro, ficavam bem claros. E a primeira providência que eu teria de tomar seria a de me submeter à uma cirurgia plástica na cabeça, onde seria colocada uma placa de acrílico para substituir parte do crânio perdida. A cirurgia aconteceu em março no Hospital Português. Fiquei internado no mesmo pavilhão de anos atrás, agora no quarto nº 8. Fui operado e passei dez dias hospitalizado. Durante esse período, fiz amizade com um casal do quarto ao lado. Antônio ficara tetraplégico após pular de um trampolim da piscina de um clube. Soube através da sua esposa, Norma. Essas coisas desagradáveis eu já estava me acostumando a ver, sem saber o que o futuro me reservava...

O casal era muito novo, e diante dessa tragédia estava inteiramente perdido, atônito, e buscava comigo informações onde pudesse se orientar. Norma tinha uma irmã que lhe fazia companhia, chamava-se Nelma, mas enquanto estive lá passava horas junto a mim, colhendo informações, ao mesmo tempo em que me consolava me dando forças, dizendo que eu deveria seguir em frente o meu caminho. Ela perguntava se eu tinha namorada e com seu olhar insinuante tentava me seduzir. Eu me perguntava: "Meu Deus, outra mulher carente em meu caminho?". Qual o atrativo que eu dispunha, perguntava a mim mesmo.

Conversei bastante sobre esse tema e minha tese era a seguinte: claro está que a mulher com o seu dom natural de mãe age, inconscientemente, de forma protecionista. Atrai para si aquele que necessita de cuidados, de carinho. Por outro lado, a mulher, namorando uma pessoa como eu, se sentiria muito mais confortável e segura de si. Meu espaço, superlimitado, dava-lhes a entender que estariam preservadas de ver outra mulher na minha vida. Essa tese, embora simplista, merece ser levada em consideração por todos aqueles que lidam com a emoção e o sentimento humano.

Em apenas uma semana, ensaiamos algumas carícias e trocamos vários beijos, tudo na surdina para que sua irmã não soubesse. Nesse meio tempo, houve um aniversário em minha casa, tendo Nelma marcado sua presença. A partir dali, aquela família entrava de vez no meu carderno de amigas. Eram amizades forjadas no sofrimento e na dor.

 

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