Veredas de uma Vida

Luiz Maia

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Ao presenciar a cena, minha prima foi logo me perguntando: "Luizinho, essa moça é o quê aqui?". Respondi tudo sorrindo, e ela me disse: "meu filho, tenha muito cuidado, isso aqui não é Recife não! Uma moça bonita dessa pode ser um pedaço de mau caminho. Cuide apenas de se tratar, aproveite essa chance!". Eu ouvi tudo calado, então falei: "minha querida prima, essa relação entre as pessoas aqui, a ida ao cinema e ao teatro, tudo é importante e faz parte da recuperação do indivíduo. Pode perceber o grande bem?" E continuei: "isso aqui é uma oficina humana, onde as pessoas vêm em busca de reparar seus defeitos, na vã intenção de recuperar o que foi um dia perdido. É um engano pensar que só o tratamento físico basta. Depois a pessoa é devolvida à sua casa, podendo tornar-se uma inútil, um peso para a sociedade". Ela, após ouvir com atenção, olhou para mim e disse: "bonito o que você me falou, pode ser mesmo verdade isso tudo, mas não deixe de ter cuidado, você ainda é um menino". Ah, essa prima é de fato muito especial, ainda me trata como uma criança...

Após mais de uma hora a conversar, ela se foi, mas não sem antes fazer uma relação com inúmeras recomendações, demonstrando todo seu carinho e bem-querer comigo. A noite chegou, e eu fui em direção ao refeitório. Após o jantar, eu me vi diante de Nádia novamente. Ficamos a conversar sozinhos, naquele imenso terraço. A certa altura, eu demonstrei minha perplexidade em conhecer tanta gente com os mais sérios problemas de ordem física, psíquica e emocional. Então, ao divisar a imagem do Cristo Redentor, de costas para a ABBR, minha voz embargou e eu cheguei às lágrimas. Nisso, ela inclinou-se para o lado, e para surpresa minha, beijou-me com minha total cumplicidade. Aquele foi o primeiro beijo que trocamos.

 

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