Veredas de uma Vida

Luiz Maia

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Rio de Janeiro, Natal de 1976. Pela primeira vez eu estava passando um Natal fora de casa. A ABBR estava deserta e as pessoas estavam em suas casas. A direção daquela clínica havia oferecido um jantar àqueles que ficaram - os "estrangeiros", como eu. Ao romper de um novo ano, a mesma coisa. Naquele silêncio ampliado, eu fiquei horas contemplando o céu estrelado. Ao lado se via a imagem do Cristo a nos proteger. Eu não tinha a menor consciência sobre a vida de Jesus... Nada eu sabia.

Eu estava ao lado de alguns amigos paraplégicos, assim como eu, sem esconder minha tristeza pela solidão daquele momento. Tudo parecia distante e triste para mim. Vez ou outra ouvíamos uma piada de um de nós e isso ajudava a amenizar aquela estranha sensação de "abandono". Mas 1977 chegara e com ele o mesmo ritmo dos exercícios; a paradinha para um descanso no clube; buscar um tempo para aquela escapulida e saber das novidades. Novas fisioterapeutas apareceram na clínica e logo comecei a fazer amizades. Eram recém-formadas e estavam fazendo estágio. Não podemos esquecer Vânia, Dalila, Rosa, Lúcia, Denise, Paula, Dulce, Abgail, Ângela, Beth, Fernandão, Sandra, Edinho, etc. Entre os pacientes lembro-me de Emília, Carmem, Leila, Eliane, Nádia, Vera, Rosângela, Gilson, Márcio, Sérgio, Adelson, Zé Carlos, Wiliam, Carneiro, etc.

Não existia rotina naquele lugar, todos os dias ocorriam muitas novidades. A freqüência no clube aumentava a cada dia. Novos pacientes apareciam, novos contatos eram mantidos. O CLAM era o coração pulsante daquela clínica de reabilitação. E assim os meses passavam sem que sentíssemos. No mês de maio, ouvi de Nádia a notícia que ela estava de alta e que iria embora na semana seguinte. Mas, numa sexta-feira antes, ao invés dela ir para sua casa, onde passava normalmente os fins-de-semana, resolveu sair comigo e me levar a um motel, na Barra da Tijuca. Aquela notícia me deixou pensativo. Eu não ia para cama com uma mulher há bastante tempo, uns três anos e quatro meses, mais ou menos. Eu sabia que teria de fazer daquele momento um trampolim, medir bem as conseqüencias, mesmo sabendo, Nádia eu, que éramos simples amigos e o amanhã não nos preocupava.

 

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