Veredas de uma Vida

Luiz Maia

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O cargo de Diretor Hospital no CLAM/ABBR colocava sobre as minhas costas a responsabilidade, entre outras coisas, de levar as reivindicações dos pacientes à diretoria da ABBR para suas devidas providências. Eu fazia isso com muito carinho, haja vista serem os reclamantes, em sua maioria, pessoas de idade. Cansei de passar pelas dependências daquela clínica e ouvir o chamado de muitos velhinhos a dizer: "Pernambuco, por favor me ajude!, peça a um enfermeiro para me tirar daqui". Isso ocorria quase sempre nos horários de refeições, quando o número de enfermeiros não era suficiente para fazer face à demanda de pacientes. Eu costumava agir assim: pedia a cada um que tivesse calma, que as providências já foram tomadas, até que a solução aparecesse. Por vezes fiquei a conversar com eles, perguntando onde moravam, se tinham filhos, e desse modo fui adquirindo a confiança e o carinho deles. O fato de imaginar que uma pessoa daquelas poderia ser meu o pai, ou a minha mãe, contribuía para eu ser carinhoso assim com eles, pois eu ficaria muito feliz em saber que alguém tratara bem de meus pais um dia.

Certo dia fui chamado pelo serviço de som da clínica, solicitando minha presença à sala da chefia de enfermagem. Tratei de tocar minha cadeira até lá e quando entrei me vi diante de Rita, a enfermeira chefe. Ela foi direto ao assunto. "Luiz Aurélio, sei de sua atuação à frente do CLAM e, como estou há poucos dias respondendo pela chefia de enfermagem, gostaria de saber de você algumas sugestões para melhorar o funcionamento do corpo de enfermagem". Agradeci pela atenção e sugeri o seguinte: "sei que existem três tipos de classificação de funcionários, os placas-verde, azul e vermelho. Verde, correspondendo a chefes de postos; Azul, formados em Auxiliar de enfermagem; Vermelho, os atendentes rasos, os chamados "peões". Fiz ver a ela que os "vermelhos" ficavam com a pior parte dos trabalhos, tendo de pegar no pesado, fazer o asseio dos pacientes, levá-los para todos os lugares, etc. Muitos com mais de dez anos de casa, ganhando só o salário mínimo, sem nenhum estímulo para melhor produzirem. Sugeri para que fosse reivindicado junto à direção um adicional no salário de 15%, como reconhecimento e estímulo. Dias depois soube que a direção aprovara um adicional de 10%. Claro que vibrei com o feito, uma surpresa para todos. Os funcionários, depois disso, passaram a me ver com um amigo.

 

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