Veredas de uma Vida

Luiz Maia

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Um domingo na ABBR. Os domingos naquela clínica eram sempre serenos e enfadonhos. Um dia desses, após o almoço, fui direto descansar no terraço ao lado da amiga Celi. Ficamos conversando por um bom tempo, quando de repente comecei a passar mal, com uma crise convulsiva. Não pude falar no momento, mas estava consciente de tudo que se passava ao lado. A descarga no cérebro fazia com que meu braço se contraísse todo. Celi, sem nunca ter visto aquela cena, tentava me acalmar dizendo: "Calma, Pernambuco, respire fundo que vai passar. Por favor, respire!..." Depois do desconforto, senti o meu braço esquerdo desfalecido. A descarga foi imensa, e os enfermeiros me aplicaram uma injeção, e em seguida me levaram para o quarto para eu descansar.

Após duas horas descansando, entra no meu quarto um enfermeiro, com um bilhete de Celi na mão, dizendo que era para mim. Dizia mais ou menos assim: "Pernambuco, muito obrigada por você existir. A partir daquele seu momento de agonia, pude perceber que não sou a última das mulheres, e que meu caso não é o pior do mundo. Obrigada, mais uma vez, por ter-me possibilitado conhecer um pouco mais da vida. Ass: Celi".

De repente, sem nenhum esforço, eu me via ajudando as pessoas de alguma maneira. Isso contribuía para o meu prazer pessoal, mesmo não sabendo ao certo, naquele exato momento, o real significado dessas coisas na vida das pessoas, vindo a compreender muito tempo depois. Ajudar as pessoas deveria ser matéria básica em todas as salas de aula. Eu ia levando minha vida assim, fazendo exercícios e ajudando ao próximo. Há um pensamento que guardo comigo até hoje, que diz assim: "Entre os homens sós e desesperados surgem facilmente as mais elevadas formas de lealdade e solidariedade humanas". (Che Guevara)

 

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