Veredas de uma Vida

Luiz Maia

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Eu continuava a fazer os meus exercícios normalmente, reforçando apenas o AVD, comandado pela terapeuta ocupacional de nome Lúcia Maria, uma amiga que só queria me ver cada vez mais independente. Passei a treinar passar da cadeira para a cama e vice-versa. Sobre a cama eu me desdobrava para tirar e pôr as roupas, fato que me fazia suar em demasia. Depois íamos até o pátio da clínica, onde estava estacionado o seu carro, e lá iniciávamos um treinamento de entrar e sair do veículo. E assim ia aprendendo a me virar sozinho, ou minimizando aquela dependência que era visível em minha vida. Sempre fiquei devendo uma atuação regular, e essa dependência carrego comigo até hoje.

Depois de adulto eu me via fazendo coisas de criança: engatinhava no tatame, ficava de joelhos tentando readquirir meu equilíbrio, vivia fazendo malabarismos para tentar trocar uma roupa, tudo isso com a certeza de que jamais alcançaria o ideal de voltar a ser o mesmo. Enquanto isso, as crianças davam de dez a zero em mim. Muitas vezes me desesperei e me senti ridículo. Eu precisava rapidamente me situar e aprender a ser humilde, o suficiente para entender que não poderia ser mais a mesma pessoa, e que teria de me agarrar com unhas e dentes aos atalhos dos caminhos da minha vida.

Não fosse esse sofrimento o bastante, todos os dias eu me submetia ao tratamento de relaxamento dos adutores da coxa, à base de gelo seco. Depois de vinte minutos assim, a fisioterapeuta subia à mesa e, apoiando-se em meus joelhos, forçava com toda força, tentando abrir ao máximo as pernas. A dor que eu sentia era tanta que cheguei a pedir para morrer, em meio aos gritos que ecoavam por todo ambiente. Quando eu ia me retirando do ginásio, do setor do STI, ouvia os funcionários falando baixinho entre si: "lá vai "Pernambuco", amanhã ele volta para sofrer novamente". Assim é a vida de quem perde a saúde.

 

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