Veredas de uma Vida

Luiz Maia

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Na primeira semana de setembro de 1977, dera entrada na clínica um jovem no frescor de seus 22 anos. Ficara internado num quarto particular, no terceiro andar. Soubemos que fora vítima de um tiro de arma de fogo quando namorava na Lagoa Rodrigo de Freitas. A bala se alojou na coluna e ele ficou paraplégico. Essa era uma cena bastante comum ali. Certo dia, ao encontrá-lo, fiz-lhe o convite para aparecer no clube. Lá conheceria pessoas na mesma situação dele, além das diversas atividades sócio-culturais oferecidas aos sócios e simpatizantes. Seu nome era Lindolfo Arraes, vindo a ser parente do ex-governador de Pernambuco, Miguel Arraes de Alencar.

Tornamo-nos amigos, quando certo dia fui convidado por ele e seus familiares para passar um fim-de-semana no sítio de seu avô, em Jacarepaguá. Fui a primeira vez e confesso que gostei de tudo e de todos. Já no sábado, tentaram me jogar na piscina, mas ponderei que não fizessem aquilo e fui atendido. Passamos bons momentos degustando um bom churrasco, feito com maestria pelo seu pai, o médico Jarbas Veríssimo, um excelente anfitrião, além de muito divertido. Aquele recanto era um ótimo lugar para recarregar as baterias, descansar, ouvir músicas, ler, e desfrutar da alegria e do carinho de sua irmã, a doce Elzita. Passávamos às tardes conversando debaixo das fruteiras, nos deliciando com as belezas da natureza do lugar.

Onde antes era uma garagem, Lindolfo tinha um quarto adaptado só para ele, e foi lá onde me hospedei. Mas no domingo, quando o relógio batia cinco horas, aproveitávamos o cair da tarde para voltarmos à ABBR. Ao me despedir de Elzita, sempre ouvia dela um "até sábado, para semana tem mais!" Claro que aquela sugestão era de pronto atendida por mim, com o maior prazer. E assim eu ia me familiarizando com todos daquela simpática família, e na semana seguinte a certeza de mais um fim-de-semana prazeroso para nós, diferenciando um pouco da rotina meio crua da clínica. Após nos despedirmos deles, Lindolfo e eu íamos direto ao refeitório, comer alguma coisa e tomar um cafezinho. Aquela era a hora em que os amigos vinham chegando de suas casas e logo começavam a nos contar as novidades.

 

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