Veredas de uma Vida

Luiz Maia

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Dia 2 de janeiro de 1970. 2h30. Lá estava eu dentro de um ônibus rumo a São Paulo. Estava dando os primeiros passos para quebrar as amarras que me prediam à família. Buscava novos horizontes, uma melhoria de vida mesmo à custa de muita saudade da família e da namorada, que ficavam para trás. Minha ousadia em alçar esse vôo deveu-se a uma excelente proposta de trabalho de um amigo meu, Antonio Arruda, onde eu passaria a perceber como salário quatro vezes mais do que aquilo que eu ganhara até então.

Contava apenas 22 anos e fui à luta. Em minha cabeça conservo ainda bem gravado o beijo e o abraço silenciosos que eu dera em meu pai e na minha mãe. Todos estávamos com os olhos cheios d'água. Logo caíra a noite e o ônibus seguia célere sua viagem, em meio ao silêncio dos passageiros. Naquela noite, quanta coisa se passara pela minha cabeça... Essa seria a primeira vez em que eu saia de casa, ainda muito novo e inexperiente. A saudade da namorada era grande, e sua ausência aumentava a saudade que batia forte em mim. Eu começara a sentir falta dos beijos, dos abraços e do carinho dela. Ah! Por que essa vida é tão complexa, meu Deus?

A viagem decorria normalmente quando aconteceu o primeiro susto: chegávamos a Penedo e ali tínhamos de embarcar numa balsa para atravessar o rio São Francisco. De um lado ficaria Alagoas no outro alcançaríamos Sergipe. O perigo consistia em ver uma balsa cheia de veículos em cima, atravessando uma largura considerável de rio, e ainda por cima numa escuridão de fazer medo a todos nós. Felizmente tudo passou e o susto ficara para trás.

Logo adiante o ônibus parou para enfrentarmos a nossa primeira refeição. Lá estavam Antonio, eu e demais passageiros degustando um belo frango assado. Acontece que o bendito galeto tinha mais gordura que macacão de mecânico, e no meio da estrada paramos todos por causa de uma tremenda disenteria. Só então descobrimos que o ônibus não tinha toalete... Que horror foi saber disso! Paramos todos para evacuar no mato, na noite escura e fria numa dessas BRs da vida. As horas corriam rapidamente e a vontade de chegar à cidade grande aumentava na mesma proporção. Eu era todo ansiedade diante das incertezas que me esperavam por lá.

 

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