Veredas de uma Vida

Luiz Maia

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Em pleno mês de outubro de 1977, minha amigas e futuras fisioterapeutas só falavam e respiravam formatura. Mas o destino se preparava para me pregar mais uma peça, ampliando minha angústia e o sofrimento. É que de repente sinto que a placa de acrílico, que eu havia colocado na minha recente cirurgia, pareceu estar cedendo, pois da cabeça minava um líquido sem parar. Por vários dias seguidos os enfermeiros fizeram curativos, sem que o ferimento cicatrizasse. Alguns médicos, meus amigos, chegaram a sugerir a vinda de neurocirurgião para avaliar melhor, com mais profundidade. Recorri às minhas amigas e todas caíram em campo buscando uma providência. Foi assim que descobriram um médico no hospital de Ipanema. No dia marcado, o tal médico chegou. Eu estava em companhia de Vânia e Dalila, todos dentro de meu quarto. Após fazer o exame de fundo de olho, ele foi rápido e objetivo e me falou assim: "você tem um quadro de rejeição e precisa ser internado rapidamente para se submeter a uma cirurgia".

Eu não esperava aquilo e comecei a chorar diante de todos. As amigas me acalmaram e disseram que iriam providenciar tudo para mim. Agradeci pelo conforto e desabafei: "logo agora, em plena época de suas formaturas, acontece isso comigo". Elas disseram: "calma, Pernambuco, sua saúde está em primeiro plano, coragem!". Na semana seguinte, todas estavam se empenhando visando minha internação, o que terminou ocorrendo. Logo eu estava hospitalizado no 5º andar do Hospital de Ipanema, aptº 512. Ficara junto a seu Silvio, um senhor já cego vítima de um tumor cancerígeno na cabeça, estando em fase terminal. Rosa e Márcia moravam perto dali, indo quase todas as noites me visitar. Minha cama ficava próxima à varanda do quarto. Em que pese todo meu sofrimento, ainda encontrava tempo para me alegrar, observando, na janela do apartamento ao lado, uma mulher que às vezes ficava seminua, andando de um lado para outro sem a blusa. Talvez fosse o imenso calor!...

 

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