Veredas de uma Vida

Luiz Maia

51

Fazia um bom tempo em que eu estava internado e nada da cirurgia acontecer. Já começava a engordar uns quilinhos devido a vida sedentária, ajudada por seis refeições diárias. Como se comia naquele hospital, impossível não engordar assim! Um dia conheci a família de Silvio. A filha e o genro dele vieram até o meu leito e começamos a conversar. O genro me falou que era piloto de helicóptero e se divertia me contando suas peripécias. Quando seu Sílvio e eu ficávamos a sós, ele costumava me fazer várias perguntas, em meio à agonia de quem não mais enxergava. Tentando amenizar eu brincava dizendo que ia comer um pouco de sua refeição e isso o deixava maluco, pedindo que não fizesse isso por nada. "Claro, senhor Silvio, fique tranqüilo" - dizia-lhe eu.

Lúcia era uma das várias nutricionistas do Hospital de Ipanema, por sinal noiva de uma amigo meu, Wilton Plum Lobato, médico residente da clínica de reabilitação ABBR. Devido a esse conhecimento, Lúcia me fartava de comida todos os dias, chegando a ponto de deixar comigo um cardápio para a minha livre escolha. Essa mordomia eu consegui através de simples amizades. Nisso, as minhas amigas já estavam prestes a se formar, quando de repente invadem o quarto várias delas, tentando falar comigo, todas de uma só vez. O companheiro ao lado só fazia dizer: "Que coisa boa... como é bom ser querido e ter amigos..." Ele estava coberto de razão! O que seria de mim sem a presença daqueles anjos ao meu redor? Confesso que seria muito difícil para mim, principalmente por se tratar de uma cidade grande, onde eu não conhecia ninguém, viver em meio a sérias limitações de ordem física.

Mas um dia eu fui operado, e o doutor Adolfo de Carvalho foi o médico responsável pela cirurgia. Logo estava eu retornando à ABBR e tratei de recomeçar os tratamentos. Mas o fim do ano chegara e Lindolfo convidou-me para romper o ano no apartamento de seus familiares, situado na Av. Atlântica - na praia do Leme. A mesa estava farta, contendo comida e bebidas suficientes para alimentar o dobro de pessoas que lá se encontravam. O clima era festivo e de muita expectativa pela chegada de mais um ano. Lá, da janela de seu apartamento, no 11º andar, eu via a multidão a se comprimir, ao longo de toda extensão daquela avenida, indo do Leme à Copacabana, num espetáculo lindo de fogos e de cores.

 

o0o

 

Anterior Próximo Sumário

Página Principal