Veredas de uma Vida

Luiz Maia

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Os dias passavam rápidos e o entra e sai de pacientes na ABBR era um fato corriqueiro. Eu retomava o meu tratamento e Rosa fora contrada desde o início do ano. Nossa amizade cada vez mais se fortalecia. Todas as manhãs eu ia à sala de eletroterapia, onde ela era a responsável pelo setor, só para saudá-la e sorver o seu sorriso largo mais de perto. Sou uma pessoal sensível, amorosa e fácil de me apaixonar por alguém. Rosa era o tipo de pessoa que granjeava muitos amigos e qualquer homem gostaria de tê-la como esposa. Com sua voz mansa, muitas vezes me pedia opinião sobre várias coisas. Ela agia assim: gostava de me ver me sentindo bem e sendo útil. Ela fazia as coisas de modo que eu me sentisse importante, influindo de alguma maneira em sua vida. Pessoa de alma nobre e coração de ouro.

Dentre os vários passeios que dera comigo, lembro-me da vez que fomos ao teatro assistir Elis Regina, no show "Transversal do Tempo". Enquanto ela se dirigia para estacionar o carro, fiquei na calçada em frente ao teatro. De repente um homem simples, aparentando estar embriagado, passou por mim deixando cinco cruzeiros no meu colo... Tentei chamá-lo, e agradecendo falei para ele que eu não precisava daquilo, que podia levar o seu dinheiro de volta. Mas ele ficou indiferente ao meu pedido, e diante de sua teimosia me vi forçado a guardá-lo. Certamente ali estávamos diante de uma alma boa, de alguém sofrido e solidário que se escondia por trás dos trajes chaplinianos.

Lá dentro estava tudo escuro. Víamos só um foco de luz dirigido sobre o corpo agachado de Elis, que dava início ao show, a cantar a música "Fascinação". Um momento ímpar na carreira dessa cantora que morreu tão nova. Tudo por causa da maldita droga, que tem infelicitado a vida de milhares de pessoas. Na semana seguinte estávamos novamente, Rosa e eu, diante do Teatro Ipanema para assistirmos ao show de Caetano Veloso. Guardo até hoje na memória um trecho da música "Força Estranha, que diz assim: "Eu vi o menino correndo, eu vi o tempo... / Eu pus os meus pés no riacho e acho que nunca os tirei.. / O sol que atravessa essa estrada que eu nunca passei..." Um show maravilhoso, lindo, que eu trago na lembrança até os dias atuais. Obrigado, minha amiga Rosa! Muito obrigado pela boa companhia.

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