Veredas de uma Vida

Luiz Maia

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Novembro de 1978. Eu resolvi antecipar a minha volta ao Recife. Fiz disso um segredo para (quase) todos, pois não estava disposto a amargar mais uma despedida. Apenas Rosa sabia. Quando a vi, marcamos para sair à noite. Eu estava disposto a lhe dizer que sempre a amei muito. Precisava dizer-lhe desse meu sentimento, custasse o que fosse. Por não ter tido a devida coragem para confessar-lhe, esse sentimento vivia preso ao meu peito, chegando a me incomodar. Sei, porém, que seria comentar o óbvio. Qual a mulher que não percebe o interesse de um homem por ela, principalmente quando os olhos dele falam?

A noite chegou, trazendo Rosa consigo. Entramos no carro e fomos direto ao posto nº 6, na praia de Copacabana. As luzes clareavam boa parte da praia, e eu firmei o olhar nas escumas brancas, trazidas pelas calmas ondas do mar. Por um instante cheguei a sentir medo do silêncio de nós dois. Aquela certeza que eu tinha, de declarar o meu amor a ela, corria sério perigo de não mais acontecer. Criei coragem e falei: "Que céu lindo! Essa noite morna deve estar servindo de inspiração para muita gente." Ela, calada estava, calada ficou. Fui em frente: "Rosa, eu necessito lhe dizer que nutro um imenso amor por você. Tudo começou desde o primeiro dia em que a vi no ginásio. Você era ainda uma formanda, mas não posso esquecer o seu olhar de alegria e toda ternura que você me dispensava. Para ser mais objetivo, saiba que por trás de todo o carinho que sempre lhe dediquei, havia um homem apaixonado. Peço-lhe até desculpas pelas inúmeras vezes que a sufoquei com meus carinhos e tantas recomendações."

Ditas todas essas coisas, calei. Rosa continuou calada por um bom tempo, quando de repente resolveu sair daquele lugar, seguindo sem rumo certo. Então ela me disse: "Pernambuco, eu sempre lhe dediquei o melhor de mim. Tanto é verdade que eu evitava sempre cuidar de você no Setor de Tratamento Individual (STI). Você sempre foi e continuará sendo especial para mim, mas hoje tenho a certeza que não passará disso." E, virando-se para mim, voltou a falar: "Eu lhe peço que não mude o seu jeito de ser: seja autêntico o tempo todo e você será ainda muito feliz!" Depois seguimos rumo em direção à ABBR, em total e completo silêncio. Ao chegar eu me sentia leve e satisfeito com tudo que falara e ouvira naquela noite. Ainda ouvi quando me falou que estava louca para que o dia de minha viagem chegasse... (?)

 

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