Veredas de uma Vida

Luiz Maia

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O ano de 1979 coria muito rápido e eu começava a sentir o peso da ociosidade. Certa noite tive uma discussão com meu irmão Germano, coisa à toa, mas o suficiente para me deixar chateado. Pedi ao amigo André para me levar à casa do escritor e militante comunista Paulo Cavalcanti. Ao chegar lá fui bem recebido, como sempre. Conversamos um bom tempo e após receber dele uns cinco livros emprestados, retornei à minha casa. Após a leitura eu ia lá novamente para ser abastecido por uma outra leva. Assim aconteceu por muito tempo. Eu comecei a me politizar aos poucos e passei a me interessar por política. Sem me dar conta, aos poucos fui me tornando uma pessoa formadora de opinião. Não sei até que ponto isso é ruim ou não, não sei. Passei a ler livros muito mais, jornais, revistas; não perdia de escutar as rádios, ver jornais e debates na TV. Dentro de um ano já me considerava uma pessoa relativamente bem informada e muito preocupada com as questões sociais do País.

Mas a realidade brasileira me fez uma pessoa cética, amarga e cheguei a pensar que já sabia de tudo. O Luiz de outrora morrera e passei a trilhar por um caminho que entendera ser o mais correto. Deus simplesmente não existia para mim e as religiões eram o ópio do povo. Ser agnóstico seria a melhor maneira de me identificar com os intelectuais de esquerda. Os ideais de Che Guevara passariam a ser os meus. E assim os meus dias iam passando. Assim eu passava os meus dias. Quando em 1980 eu conheci uma moça muito interessante e passamos a namorar. Ciçone era o seu nome. Namoramos e chegamos a nos apaixonar, mas o empecilho maior era o fato de eu não estar a trabalhar, nem ter nenhum tipo de renda para sobreviver. A promessa de um emprego viria do Rio de Janeiro, enquanto no Recife os caminhos estavam fechados para mim.

A família de Ciçone era abastada, tendo alguns parentes usineiros e muitos empresários do ramo da construção. Ela tentava de tudo para me colocar numa dessas empresas, mas tamanho esforço não obtivera êxito. Mesmo assim namoramos por mais de um ano. Lembro-me dela vindo todos os domingos à minha casa, sempre trazendo consigo um ramo com flores para dar à minha mãe. Um dia ouvi do seu irmão a seguinte promessa: "se vocês se casarem um dia, eu lhes presenteio com uma casa em Piedade." Mas o tempo passou e hoje só nos resta a lembrança.

 

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