Veredas de uma Vida

Luiz Maia

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Janeiro de 1983. Eu recebia em minha casa uma visita muito importante. Com trajes simples e andar manso, aquele homem chegou perto de mim, apertou a minha mão e deu-me um abraço. Nada mais nada menos que o legendário Gregório Bezerra. Um líder comunista, reconhecido em todo mundo, e respeitado pelos seus mais ferrenhos adversários. Ele estava pertinho de mim a contar suas histórias e a tirar as minhas dúvidas. O seu cabelo branco era um indicador de uma idade já avançada. Aos 83 anos, tinha Gregório a idade do século. Eu o escutei por pouco mais de uma hora, tempo suficiente para saber dele muitas coisas que marcaram a sua vida. Logo depois a minha prima Eva segurou a sua mão e o levou de volta à sua casa.

Eu fiquei satisfeito com aquele encontro e isso só aumentava a minha esperança de viabilizar o socialismo no Brasil. Nós vivemos num País recheado de injustiças de toda ordem, onde as elites dominantes são, reconhecidamente, as mais cruéis do planeta. Elas não se bastam com a grana e o poder de que dispõem e querem sempre cada vez mais e mais, ignorando por completo o enorme caos social por elas estabelecido. Do outro lado da verdade, estão os excluídos da sociedade, um batalhão imenso de desesperados que cresce à medida em que a renda diminui e o desemprego cresce no seio da população. Na minha ingenuidade, imaginei que eu precisava fazer alguma coisa o mais rápido possível e entendia que só era viável através da política.

Eu passava horas e horas lendo, ouvindo debates nas rádios e nas TVs, ao mesmo tempo em que começava a escrever às redações dos jornais, a denunciar aquilo que eu entendia como sendo errado, traduzindo toda a minha indignação. Eu respirava política e informação vinte e quatro horas ao dia e não me cansava disso. Lembro-me que em abril de 1984, quase toda a sociedade se mobilizou no sentido de implementar a volta das eleições diretas para Presidente da República. Um grande movimento se espalhou pelo Brasil, conhecido por "Diretas Já!" O País estava completando vinte anos do regime de exceção, com a vigência a partir de 1964 da ditadura militar. O governo já emitia sinais de desgastes e boa parte dos mandantes era a favor do movimento. Chegou o dia da "Emenda Dante de Oliveira" ser votada pelos parlamentares, que propunha a volta das eleições livres e diretas. No dia 25 de abril de 1984, todo o País estava voltado as suas atenções para o Congresso Nacional. Fora proibido o acesso da imprensa ao plenário, onde deveria transmitir aquela sessão especial. A votação ocorreu na surdina, digna dos regimes totalitários, e a "Emenda Dante de Oliveira" foi derrotada. A comoção tomou conta do País com o adiamento da democracia e a volta do País ao Estado de Direito.

 

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