Veredas de uma Vida

Luiz Maia

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Chegara o ano de 1986 e com ele muita efervescência política. Certo dia telefonei para Mariana Arraes para falarmos sobre um programa de rádio, do qual ela era uma das coordenadoras. Minha intenção era a de formular algumas sugestões para o seu aproveitamento ou não. Um dia à noite ela veio ao meu encontro, chegando à minha casa onde conversamos por um bom tempo. Algumas sugestões foram acatadas, sendo uma delas (pelo menos) possível de ser logo executada. Antes dela ir embora, não podíamos deixar de comentar sobre a candidatura de seu pai ao Governo do Estado de Pernambuco. Votar em Miguel Arraes era o sonho de muita gente.

O fato é que mais mais adiante eu entrei na campanha política para valer. Juro que ninguem me segurava por nada. Participei de debates em grupo, de caminhadas e carreatas, além de montar um minicomitê em minha residência, onde havia um farto material de propaganda. Eu não fazia outra coisa a não ser trabalhar visando a eleição de Arraes. Mas faltando vinte dias para as eleições, eis que uma tragédia acontece na minha família. Um acidente automobilístico ceifara as vidas de meu irmão, sua mulher e suas duas filhas. José Ângelo, Grace, Flávia e Andrea morreram aos 31, 29, 5 e 2 anos, respectivamente. Todos novos, tendo ainda muita vida para ser vivida pela frente, só não ocorrendo devido à imprudência e à irresponsabilidade de um motorista de estrada que, dirigindo totalmente embriagado, jogou o seu caminhão sobre o automóvel de meu irmão, em plena contramão na BR-101 Norte, causando o acidente fatal.

A notícia causou um impacto tremendo a todos que os conheciam. É de se imaginar a imensa tristeza que se abateu sobre a nossa família. Eu perdi o interesse pelas eleições e o encanto pela vida, nada mais parecia ter sentido para mim. Tenho a certeza de que comecei a definhar dentro de mim a partir do dia 26 de outubro de 1986. Doía-me ver a minha sobrinha Renata sozinha, a única sobrevivente do acidente, após ter-se submetido à uma intervenção cirúrgica de urgência para extrair um dos rins. Eu imaginava a dor dela de ver toda família morrer daquela forma e não me conformava de jeito nenhum. Quem causou esse terrível acidente ficou impune até hoje, fato este que só vem premiar àqueles causadores de graves infrações no trânsito. Maldita bebida essa, causadora de inúmeros desastres sem fim, tendo ceifado a vida de muita gente inocente pelas estradas desses brasis afora. Maldita impunidade esta que grassa em nossa sociedade!

 

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