Veredas de uma Vida

Luiz Maia

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O tempo passava rapidamente, mas eu continuava sob o impacto do acidente que enlutara a nossa família. A cada dia eu perdia a vontade de passear, o gosto de ler e de escrever, e a política já não me seduzia como antes. Os livros de Paulo Cavalcanti, as poesias de Neruda, os meus escritos e rascunhos, tudo estava guardado e trancado num gavetão. Eu desaprendera a vida. Faltavam-me estímulos e motivos para viver. O certo é que eu não podia deixar a chama da esperança, simplesmente, se apagar dentro de mim, já que a vontade de viver se fora aos poucos. Caso isso viesse a ocorrer, seria o mesmo que decretar a minha morte. Eu estava inteiramente dependente da esperança em algo novo que pudesse acontecer no meu caminhar.

Ao mesmo tempo eu pensava nos excluídos da sociedade, nos pobres e desvalidos do nosso País, fruto de um sistema insensível que macula o que há de bom nos seres humanos. Embora a minha dor fosse grande, mesmo assim não conseguia embotar a minha vontade de ajudar ao próximo, só não sabia qual o caminho que eu teria de seguir. A esperança não podia morrer e algo nada bom estaria prestes a me acontecer. Nesse meio tempo, aconteciam as eleições para Presidente da República do Brasil. Eu tomei uma posição radical, entendi que jamais votaria na minha vida. Eleições no nosso País não podem nem devem ser levadas a sério, pois mesmo antes de obtermos o resultado final, já ficamos sabedores dos vencedores. É um jogo de cartas marcadas, em que não há espaço sequer para as sutilezas no processo. Tudo é feito e conduzido às claras, embora não desconsiderem às caladas da noite. Todos sabem disso e nada fazem para sanear essa excrescência. O País precisaria urgentemente adotar o voto facultativo como solução para se pôr um fim no voto de cabestro. Seria pertinente eliminar o voto obrigatório já que este serve apenas a interesses meramente clientelistas. Basta de paternalismos, o brasileiro precisa deixar de ser tratado como cidadão de segunda categoria para poder exercer sua plena cidadania. Outro absurdo é o procedimento dos institutos de pesquisas, que na impossibilidade de adotarem uma conduta neutra, agem, sistematicamente, como indutores do voto. Uma simples pesquisa, em cima das eleições, induz o incauto eleito a transferir o seu voto para aquele candidato que estaria possivelmente à frente nas pesquisas. Certamente muitas pesquisas já modificaram o resultado final de várias eleições. Triste sina a nossa!

 

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